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sábado, 15 de agosto de 2026

Regressar ao passado para salvar o planeta

 

Na década de 70 do século passado, a procura da modernidade, a conveniência do descartável (mais prático, mais higiénico e mais durável)   provocou um atentado ambiental e solidificou grupos económicos.
Este "milagre" trouxe uma contrapartida invisível na altura, mas hoje sufocante: milhões de toneladas de plástico e materiais compostos que demoram séculos a degradar-se. Esquecemo-nos  que resíduos plásticos e metálicos  contaminam a água, o solo e, inevitavelmente, a nossa própria saúde.
 Hoje, a visão oficial das instituições europeias é clara e categórica: não é possível ter cidadãos saudáveis num planeta doente

A Era da Leiteira e da Bicicleta



Nas primeiras décadas do século XX, o circuito do leite era direto do produtor ao consumidor.  No princípio, quem queria leite ia buscá-lo à quinta mais próxima. O produto vinha  puro, tal como saía da vaca — um alimento tão rico e natural que ajudava no desenvolvimento das crianças mais frágeis.
Com o crescimento das vilas e cidades, o sistema alterou-se , mas manteve a essência circular; surgiram os vendedores ambulantes de leite que se deslocavam em bicicletas Yé-Yé , equilibrando leiteiras de alumínio reluzentes. De porta em porta, enchiam as vasilhas de vidro ou metal que as famílias deixavam à entrada. Não havia lixo. Não havia desperdício.
Mas havia que trazer para a economia fiscal essa actividade que até aí era de subsistência. As mercearias e leitarias de bairro passaram a vender leite engarrafado.

A Europa e o futuro dos recipientes e produtos
Cinquenta anos depois, as instituições europeias assumiram o papel de regulador severo. Partindo do princípio de que proteger o ambiente é o primeiro passo para proteger a saúde pública, foram desenhadas novas diretivas sobre embalagens, regulando  sobre o que consumimos e como o transportamos. O calendário desse planeamento já tem metas fixadas:
  • 2027: O cliente poderá levar o próprio recipiente para trazer comida preparada de restaurantes e cafés.
  • 2028: Os estabelecimentos comerciais deverão disponibilizar, obrigatoriamente, opções reutilizáveis para comida para levar (take-away). No mesmo ano, até as saquetas de chá e infusões terão de ser compostáveis.
  • 2030: O plástico supérfluo será banido do uso comum. As embalagens individuais de açúcar, sal, molhos e outros condimentos deixarão de ser permitidas nos restaurantes para consumo no local. Nos hotéis, os pequenos frascos descartáveis de champô, gel e sabonete serão fortemente restringidos. Haverá também novas regras para fruta e legumes embalados em plástico, sacos muito finos e os tradicionais anéis de plástico que unem latas. Até as compras online terão limites para o espaço vazio nas caixas de envio.
  • Para garantir o equilíbrio vital (saúde humana e saúde do Planeta)  a  Europa terá de aplicar normas rígidas e eficazes para regular tudo o que é de uso comum. A ironia é que, para salvar o futuro, teremos de regressar ao passado.
  • Cada vez mais tem que ser promovida a economia circular para reduzir a distância para o abastecimento, e reduzir as emissões dos meios de transporte.
A "Vaca Comunitária Europeia" 


Perante  normas anti-poluição tão rígidas, a economia e a inovação terão de se adaptar de forma radical. Baseando-se no passado,  aolicando tecnologia, , alguém terá a brilhante ideia de criar a Vaca Comunitária Europeia.
Imagine um dispensador automatizado, gerido por Inteligência Artificial, instalado nos grandes empreendimentos hoteleiros, hospitais, escolas, nas praças centrais e nos bairros das nossas cidades. Uma "vaca digital" ligada diretamente a cooperativas locais de produtores. O cidadão aproxima-se com o seu próprio recipiente reutilizável; a IA faz o reconhecimento da embalagem, calcula a dose ideal e faz o enchimento do leite fresco, diretamente para o consumidor, sem intermediários, sem pacotes de plástico e sem desperdício de recursos.
O que no século passado era a carrinha do leiteiro ou a quinta do vizinho, amanhã será um algoritmo de alta precisão a garantir o desperdício zero. Afinal, a maior inovação do nosso século poderá muito bem ser, simplesmente, redesenhar as boas práticas do passado com as ferramentas do futuro. Se um planeta doente nos adoece a todos, o verdadeiro progresso será termos a coragem de regressar às origens.
E se calhar, o custo dos produtos vai baixar.