sexta-feira, 25 de abril de 2014

ADEUS, inocência dos 20 ANOS

Viajar no comboio-correio entre Santa Apolónia e Campanhã era uma coisa que eu fiz algumas vezes. A última foi em Março de 1974, durante uma licença militar. Às 23h30 já tinha adquirido o bilhete e, como habitualmente, percorri os olhos pelas prateleiras da papelaria/tabacaria. Lá estava ele; aquele de quem eu tinha ouvido falar no quartel da EPC em SantarémPortugal e o Futuro” – que me faria companhia nas longas 7 horas de viagem.
Aconteceu isto antes da minha transferência para o CISMI em Tavira, ocorrida um mês depois, em cuja Parada o meu camarada Zé Augusto me dá a novidade no dia 25 pelas 11horas: “houve um golpe de estado”.
“Quem o fez”?
“O Spínola.”
“Então vai começar uma ditadura…”
“Não, em ditadura estamos nós... vai mudar para democracia”.
A inocência era o desconhecimento das causas políticas, o entregar-se ao trabalho, aos estudos, à definição de um objectivo de vida pessoal e profissional, geralmente alcançáveis se nos mantivéssemos no estado da “inocência”.
Muitas esperanças deram lugar a muitas ilusões que foram lentamente desaparecendo, à medida que o cofre esvaziava e novo imposto se implantava, com o aparecimento das incontroláveis aves de rapina que, à boleia das asas da promissora "Liberdade, Fraternidade, Igualdade" iam criando leis restritivas para a maioria do povo, iam implantando novas taxas e impostos para, supostamente, eliminarem as assimetrias sociais, mas que muitos se aperceberam, desoladoramente tarde, que outros rumos tomaram.
A maior desilusão é que existem muitas entidades reguladoras, mas nenhuma regula nem avalia, por iniciativa ou competência próprias, as acções executivas, que, a coberto de uma legitimidade democrática, beneficiam alguns, mas prejudicam a grande maioria.
A solução não é emigrar, mas lutar, para conseguir uma vida melhor, que nos faça sonhar, que nos permita viver com alegria,realizar as coisas que gostamos.